Thursday, January 18, 2007

Chuva de Verão


Esquecera o guarda-chuva. A maquiagem estava borrada, os dedos ensopados e escorregadios, o cabelo espigado. Calor insuportável que sucede as chuvas secas de verão. A promessa de refugiar-se entre as pernas dele, entre lençóis macios e a névoa fria do ar-condicionado, a fizeram prosseguir saltando os buracos do asfalto, esforçando-se para equilibrar-se sobre o salto instável, suportando as buzinas dos impacientes e o trânsito caótico dos dias chuvosos. Tropeçou numa tora de madeira trazida pela água, caiu de palmas no chão. Balançou a terra dos dedos, lambeu o dedão machucado. Arrancou as sandálias, apressou o passo, apertou a campainha estridente. O porteiro abriu a porta, ofereceu uma toalha. Agradeceu a cortesia, invadiu o elevador, passou a mão pelos cabelos. Encostou o dedão machucado na campainha. Silêncio do outro lado. Insistiu, com um pouco mais de força. Não obteve resposta. Resolveu bater. Nada. Minutos depois, se deu conta de que chorava, enquanto esmurrava o muro de madeira, e ouvia a secretária eletrônica do celular. Desceu o elevador em prantos. O porteiro lhe assegurou que o havia visto entrar. Disse, com a mão sobre a sua, que os homens dessa nova geração são assim mesmo: displicentes, insensíveis, nada cavalheiros. Inclusive, havia percebido pelo cambalear de pernas dele, que havia bebido um pouquinho. Devia ter caído no sono, rendido pelo álcool. Não era pra moça se importar. Voltou a oferecer-lhe uma toalha, acompanhada de um cafezinho, no quartinho nos fundos do prédio. Não encontrou a névoa do ar-condicionado, mas o ventilador de duas pás era suficiente para afastar o calor. Os lençóis estavam limpinhos, cheiro de sabão de coco, recém-saído do varal. Acordou com o Sol incomodando os olhos. A primeira coisa que viu foi a calça desbotada do porteiro dobrada sobre a cômoda.