Wednesday, November 08, 2006

Diário de Transbordo - Parte XVII: OAXACA


Quando o carro deixou a estrada de terra é que o coração começou a bater mais forte. Sempre acreditou que emoção está é na cabeça, mas o membro aflito, querendo sair a qualquer custo de dentro do peito, quase a convenceu do contrário. A cabeça permanecia imóvel, sem querer ver os soldados que corriam de um lado para o outro sem saber aonde ir, e a gente de cor amarela e cartolina nas mãos gritando um cântico desafinado para ninguém ouvir.

Pensava encontrar professores como os de sua infância: roupas antiquadas e engomadas, óculos de leitura, cabelos alinhados, fala mansa, mas suficientemente firme para impor ordem. Mas estavam todos sujos, desgrenhados, com cara de fome de tudo, e expondo nos cartazes a pouca intimidade com a gramática. Lembrou dos seus sem-terra, dos seus sem-teto, dos seus filhos da seca, e sentiu vontade de fugir daquela guerra que não era dela.

Não reconhecia como sua a dor daqueles professores, que lutavam pela destituição do governador do estado, embora sentisse entre gritos e cartazes mal escritos resquícios da paixão indignada que conduz os movimentos de esquerda. Formaram uma Assembléia Popular (APPO) para estabelecer uma forma de governo alternativo, realmente preocupado com a educação das comunidades indígenas de Oaxaca, depois que o governo reprimiu brutalmente os professores grevistas.

Montaram uma estrutura bem similar a dos assentamentos de sua terra: reuniões periódicas, divisão de tarefas, disciplina, tratamento redobrado para as cordas vocais e a disposição para morrer pela causa, se necessário. E ela estava ali, misturada aos maestros campesinos, sem conhecer seus cânticos e sem sentir ódio pelo governador que assassinava professores grevistas. Sua missão consistia em marcar no papel o que seus olhos registrassem: conhecer as histórias de resistência e os sonhos daquela gente.

Nos dias que se seguiram, comeu da comida deles, banhou-se onde se banhavam, tremeu de medo atrás de barricadas de saco de areia, participou das assembléias, jogou bola com os filhos dos professores grevistas, e se sentiu quase em casa. Os outros repórteres estranhavam seu interesse pelos jogos de infância enquanto soldados disparavam sem piedade contra o muro de seres humanos. Seguramente fez a pior cobertura de todos os tempos em sua primeira experiência como repórter enviada para um campo de batalha. Talvez por covardia, ou provavelmente por incapacidade de unir reportagem e militância, preferia servir a comida nos alojamentos, enrolar colchonetes e pintar cartazes com palavras de ordem.

Riu com as piadas do José, professor de educação indígena, ajudou o pequeno Manuel a fazer a lição de casa, contou para María e para a Lupita a história de Che Guevara. Dormiu e acordou por uma semana ouvindo o estalar das metralhadoras a poucos metros de seus tímpanos. Surpreendeu-se com a capacidade do ser humano de se adaptar a tudo, até ao medo.

Mas no dia em que voltaria para a capital do México, gritos interromperam a despedida com Rosío, que lhe havia presenteado com uma pamonha rosada. Haviam matado um jornalista: Brad Will, de 36 anos, foi baleado no abdômen enquanto registrava um dos enfrentamentos. O documentarista estadunidense, militante de movimentos sociais, sangrou até a morte no centro da arena, por uma guerra que não era dele.

Quando o carro encontrou a estrada de terra, o coração voltou a bater forte. Pensou no companheiro morto, nas crianças oaxaquenhas sem aula, nos policiais que defendiam o que deveriam atacar, nos professores famintos e semi-alfabetizados. E percebeu, com atrasada nostalgia, que aquela guerra também era dela.

DOLORES RECOMENDA:

http://www.asambleapopulardeoaxaca.com/

http://cartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3363

3 Comments:

At 1:43 PM, Anonymous Anonymous said...

Compañera querida,

Extrañamos tu poesía y tu mirada. Tienes el equilíbrio perfecto entre razón y dulzura.

Paz y Lucha!

Victor ****************************

 
At 2:32 PM, Blogger Mauro Sérgio said...

Sim, Dolores, a luta dos professores de Oaxaca também é nossa. Assim como também é nossa a luta dos bancários, por melhores salários, como também é nossa a luta dos imigrantes franceses, dos quilombolas, dos sem-terra e sem-teto...

Lu, seja bem-vinda a este solo, que tanto precisa de lutadoras como você.

Mais do que nunca, precisamos reunir os companheiros para trocar impressões de nossas batalhas recentes.

Um grande beijo em fraternura, com saudades próximas do fim.

Mauro

 
At 9:50 AM, Anonymous Anonymous said...

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