Sunday, November 05, 2006

Diário de Transbordo - Parte XVI: Mitos e Lendas - O Espanto



Em Tijuana – sexo, tequila, marijuana – Dolores perdeu a carteira, a câmera fotográfica, a saia vermelha rodada e o passaporte brasileiro.
Foi assaltada num banheiro público de um bar clandestino, às três da madrugada, no caminho de volta para a casa na capital. Ao chegar ao destino final, sentiu que suas pernas haviam morrido desde o ocorrido. Nos dias que se seguiram, não tinha forças para caminhar, e nem os tacos ao pastor lhe abriam o apetite.

Surpreendida com a incomum apatia de Dolores, Ofélia, uma amiga sexagenária mexicana, deu o diagnóstico: “Dolores, mi hija, tu tienes espanto”. De acordo com a sabedoria indígena, as pessoas podem adquirir “espanto” ou “susto” ao passarem por lugares de energia negativa, quando cruzam com maus espíritos ou quando são atacadas por animais. Com a chegada da “civilização”, os curandeiros indígenas passaram a incluir “roubo, estupro e seqüestro” como outras adversidades causadoras da enfermidade espiritual.

Ofélia explicou a Dolores que espanto é doença grave, e como tal deve ser tratada a sério. O tratamento mais indicado é levar o doente ao local onde adquiriu o espanto, para um ritual de purificação. Dolores deveria voltar ao banheiro público de Tijuana, ao meio-dia, para tomar um banho de ovos, aguardente e um punhado de ervas. Mas a idéia de viajar quilômetros para ser tratada como tempero de frango de domingo não lhe devolveu o ânimo.

Diante da recusa da amiga espantada, Ofélia apresentou a Dolores uma segunda opção. Como hoje em dia ninguém tem tempo para rituais e para todas as outras coisas que realmente importam, explicou, os mexicanos inventaram uma forma de ritual expresso: quando o espantado não tiver esperando, um amigo de bom coração deverá jogar um copo de água com ervas nas costas do enfermo. Com o banho surpresa, o espantado recobra, imediatamente, a felicidade perdida.

Na noite em que Ofélia lhe revelou que sofria de espanto, Dolores resolveu sair para beber mojitos no bar cubano, em companhia dos amigos operários da comunicação. Bebeu a ponto de subir no palco por uma canção do Polo Montañez.

Faltando duas quadras para chegar cambaleante a casa já iluminada pelos primeiros raios da manhã, sentiu as costas encharcadas. Virou-se a tempo de ver o espectro de Ofélia virando a esquina com um copo vazio nas mãos.

Cidade do México, 23 de outubro de 2006.